4 dias, 3 noites

Conforme prometido segue a narrativa dos fatos mais importantes destes quatro dias passados com Julia. Ela irá sair de férias e vai viajar com a mãe por 14 dias. Parece pouco tempo pra sentir saudade. No meu caso é muito tempo sem minha filhota.
Voltando aos dias: Jujú chegou aqui no sábado uma criança e saiu daqui hoje outra.
Veio perto da hora do almoço super agitada, eufórica. Almoçou etc e parecia que queria fazer tudo na mesma hora: fazer artes, andar de bike, passear, estourar bexigas etc. Então, resolvi propor “abaixar” essa excitação vendo um filme no meu computador deitados na cama.
15 minutos de filme, senti minha camiseta molhar de um líquido quente… Batata! Mesmo eu tendo posto ela para fazer xixi pouco antes do filme ela tem a capacidade de segurar e controlar o xixi. Deu uma risadinha bem sacana na hora que eu falei “levanta, filha, vai pro banheiro tirar a calça e a calcinha”. Bom, ritual da limpeza dela e troca de roupa feito, tentamos reatar o filme.
5 minutos depois ela dá uma gargalhada estridente e sinto novamente o novo colchão molhado. Fiz cara de paisagem e repeti todo o esquema anterior, sem alarde, para não reforçar.
Passeamos, compramos bexigas, lanchamos juntos na rua e voltamos perto do final da tarde. Fez tudo que mais gosta: andou de bike, trabalhamos com tinta, tesoura, cola e materiais fazendo um novo quadro.

quadro

Colagem feita com cascas de árvore para simular o tronco dos limoeiros

Comeu, fez quebra-cabeças e viemos pro “nosso canto”. Dei banho estouramos algumas bexigas, daí sessão iPad para ela, computador para mim. Depois filminho juntos e caminha.
1 xixi no lençol. Troquei o lençol uma vez, dei banho na parte de baixo dela, troquei ela e caminha de novo.
Novo xixi. Fiz, de novo, sem falar absolutamente nada com ela todo o ritual acima. Deitamos de novo.
Xixi novamente! Daí eu simplesmente disse pra ela: “vai dormir assim!”. Ela chorou, queria ficar perto de mim eu tirava o braço, me virei e fingi dormir. Ela vinha com a mão em meu rosto para virar, eu tirava a mão dela e fiquei resoluto, ela ia dormir assim. Aquele chororô durou uns 20 minutos entre várias tentativas de me fazer mudar de ideia. Chorou de soluçar, até que dormiu. Esperei 30 minutos, quando ela roncava gostoso, eu a acordei. Disse “vamos trocar agora filha”. Ela acordou bravíssima, com muita pouca boa vontade me ajudou a vestir a nova calça de pijama, daí sim deitamos e deixei ela dormir e dormi.
Queria ver na próxima noite o efeito desta tática.

Foto criada em 07-07-13 às 12.07 #2

Acordamos fomos no sítio do amigo Gilson, ia ter um jogo de futebol e um churrasco e, apesar do excesso de homens, resolvi levar Jujú porque sabia que ia ser um ótimo ambiente como foi. O lugar em São Roque é lindo, e tinha um astral incrível. Jujú se esbaldou ao ar livre, brincando com o cachorro do Henrique ( o Lion, um golden retriever muito mansinho e novinho ainda), na casinha de bonecas cor de rosa que havia no sítio e no playgound completo, só para ela.
Enfim. Dia de sonho ainda por cima com churrasco, que Jujú adora.
Ela já interagia com todas as pessoas e todas as pessoas ali, já sabiam um pouco mais sobre autismo, e como lidar, como conviver com uma criança autista. Eu deixava as coisas acontecerem naturalmente e observava não apenas a reação dela. É curioso demais isso…
Raras as vezes que tinha que explicar alguma coisa, até o momento que ela roubou o sanduíche da mulher do Henrique, dona do cachorro que ela brincava sem parar. Quando tirei o sanduíche dela e ela chorou sentido quase apanhei dos 2 times de futebol. Até explicar que ela faz dieta de glúten, etc que faz muito mal para ela, passei apuros. Mais uma informação ao grupo e tudo transcorreu otimamente bem. Ela pulou, brincou, gritou, gastou energia até a volta pra SP.
Dei banho, assim que chegou e ficou vendo vídeos, já cansada.
Assistimos a uns vídeos até nós dois dormimos. Sem xixi!!! Deu certo uma noite, agora minha expectativa era para terceira noite. Se ela realmente tinha aprendido a lição do xixi.

cafofo

Jujú, já “bicuda” de sono.

Dia seguinte SN (sem novidade). A rotina básica de quando ela está aqui, mas como estava bem frio, ficamos mais “recolhidos”. Novo teste, nova noite de sono. Resolvi ousar indo deitar mais cedo. A tática foi vermos filmes pelo youtube juntos. Ela deitou no meu peito até ressonar. Mais uma noite sem xixi!!!
Eu aprendi a lidar com essa questão e ela aprendeu que não é legal fazer xixi na cama.
Parece pouco, mas pra mim foi uma enorme conquista. Em breve, morando comigo também quero ela cada vez mais participativa e independente. Ela nunca se recusa a ajudar quando você a solicita. Alías parece que ela fica ansiando isso. O convite. Ela ajudar. Acho que quem é pai de autista repara nisso: a disposição para tudo que eles tem. Qualquer coisa que é proposta, por eles é feita sempre com mais que prazer. É difícil explicar. É mais que prazer porque tem a ver com “missão cumprida”. A seriedade deles em executar é invejável. Eles, autistas, é quem sabem viver. A entrega deles é total.
Sendo assim, tirar disso uma forma de estimular a Julia a fazer uma série de coisas. E com isso se integrar. E assim ambos evoluirmos os aprendizados: ela na vida e eu no desenvolvimento dela.

Obs: Estes dias, por acaso, me chamaram de “um bom pai”. Eu não sei se sou um bom pai. Sou pai. Acho que todo pai que é pai é deve ser um bom pai. Não sei em que sentido se referem. O contato, a influência ou a forma que eu lido com ela que me fazem ser um “bom pai”. Me acho o pai da Julia que, por ser uma autista não verbal merece todo minha atenção e meus esforços em ajuda-la. Com assim seria se eu tivesse uma menina com desenvolvimento típico. Pai especial é o papai do céu que tem mais de 7 bilhões de pessoas pra olhar nesse planeta, fora toda a natureza…
Só sei que estes 6 meses morando longe dela me ensinaram a otimizar melhor o tempo com ela. Me entreguei, como nunca, para entende-la e faze-la sentir que estava ali comigo, trocando, sendo compreendida, convivendo e aprendendo juntos a lidar com as várias situações dessa vida. Os dois. Ambos. Ela me ensina tanto quanto eu a ela. E ficar sem essa companhia, que só me ensina, só me acrescenta, vai fazer falta.

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