Insistir e persistir – a saga do transporte público

Minha filha voltou a andar de metrô e trem. Pelo menos a primeira etapa foi cumprida. Eu divido em etapas essas questões a serem resolvidas. Na verdade são mudanças de grau de dificuldade (para ela), até que ela chegue no objetivo alcançado.
No caso, essa primeira etapa foi cumprida com a explicação do que é o metrô, ela viu, assimilou. Para tanto fui na estação da Luz, bem cedo, no domingo passado.
Primeiro passeamos no Jardim da Luz, um dos parques mais legais de SP. De lá, voltamos para gare, e logo na entrada (vindo do parque) tem um piano, que pode ser tocado. Foi ali que “quebramos” um pouco o gelo inicial fazendo um barulho com aquele piano digno de fazer Beethoven se revirar no túmulo.
Aí fomos até a sacada da estação ver, de lá de cima, os trens chegarem e partirem. As pessoas entrando e saindo e ela foi perdendo o medo, ou sabe-se lá o que foi que fez ela começar a dar trabalho no metrô.
Minha aposta foi na questão sensorial. Então decidi fazer a aplicação da sequência de etapas, que invariavelmente é um bom caminho pra resolver esse tipo de problema com Julia.
Tenho essa preocupação porque nunca sabemos quando será preciso andar de ônibus ou metrô com ela. Sem esses “treinamentos” eu sei que é impossível.

Foto: Fick.br Estação da Luz - SP

Foto: Flick.br Estação da Luz – SP

Bom, voltando à tática escolhida, e a primeira etapa, depois de explicar como funciona, para que serve, depois dela ter visto vários trens chegando, perguntei: “Vamos lá Juju? Você quer andar de trem?”
Ela aceitou dando pulinhos o que me incentivou a ser ousado. Ia leva-la no trem mesmo, primeiro… por cima da terra, ela vendo tudo etc. Mas o entusiasmo foi tão grande que resolvi arriscar o metrô, subterrâneo, mais rápido, mais barulhento. Coragem…
Embarcamos e viajamos 4 estações de um percurso de 15 minutos. Foi o limite para ela. Na última “perna” da viagem ela já quis sair… e diferentemente do ônibus que ela entende e espera o ônibus parar, a porta abrir para descer, no metrô ela quer abrir ali, na hora e descer, como se fosse possível.
Ela não cansa de andar de ônibus e hoje em dia entra em ônibus cheios, tranquila. O problema mesmo começou a ser o metrô. E tem lugares que levamos, por exemplo na dentista dela, que é muito mais fácil ir de metrô…
Mas vamos conseguir, não é, com um bocado de insistência e um punhado de persistência. Agora a próxima etapa é ir aumentando esse tempo x deslocamento, ainda com metrô vazio, em dias mais tranquilos. Vamos sem pressa, mas com determinação. As novidades serão descritas aqui. Sugestões, críticas e “toques” são sempre bem vindos.

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Eu mimo sim

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Minha filha autista é mimada. Muitas vezes percebo nos acessos dela, que são autênticos, claro, um Q de criança mimada.
E é claro que ela é mimada. Como eu acredito que a maioria dos pais de autistas mimem… podem até não admitir mas mimam sim, nem tem como não mimar. Essas crianças já sofrem consequências demais por conta da sua condição médica, medicamentos alguns, dietas e protocolos específicos outros, um monte de terapias, psicossociais, psicomotoras, fonoaudiológicas, intervenções, fora o preconceito da sociedade, que eles podem até não demonstrar que sentem, mas sentem, com certeza.
Toda a dureza que alguns, como a minha filha passam de não falar… alguns com comprometimentos orgânicos mais sérios, comprometimento na parte motora, desmaios e convulsões.
Isso sem contar com a sobrecarga sensorial que eles passam diariamente, sem a gente ter a menor pista… somente quando começam a ter comportamentos inadequados, uma forma de comunicação deles para mostrar que há algo errado.
Por tudo isso é errado facilitar algumas coisas para estas crianças?
É errado enchê-los de carinho? De mimos e agrados?
É errado pensar neles, 24 horas por dia, 60 minutos por hora, 60 segundos por minuto?
Eu acho que não. Julia é mimada sim e enquanto puder mimar vou mimá-la, pagando um preço justo por isso. Eu pago!

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Recordar é viver – Juju 5 anos

Video que mostra fotos da Juju do nascimento aos 5 anos de idade. Bom demais poder relembrar cada momento da sua vida. Obrigado por você me escolher ser seu pai.

 

Passeio no Trianon, percepções de comportamento e linguagem

Hoje mais um dia de passeio com Julia. Fomos no Trianon de ônibus para variar. Julia simplesmente elegeu o ônibus como seu veículo de transporte público preferido.

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Ela andava de trem, metrô, mas nunca curtiu. Já nos ônibus ela se sente à vontade, desde que sentada numa janela…

Fico pensando o porquê de não aceitar mais o uso do metrô ou trem. As últimas tentativas foram muito frustrantes e traumáticas então resolvi dar um tempo para entender o que se passa com ela. Se é uma fase ou não, ou se algo acontece quando ela entra, e anda num vagão.

Há uma sobrecarga, eu presumo que seja auditiva, além da sensação de recinto fechado que dá. Talvez uma mistura disso. O fato que preciso treiná-la a usar algum tipo de transporte público, até para uma emergência,

A saída tem sido o velho e bom “bumbão”.

Vontando ao passeio, tive a infeliz ideia de leva-la no parquinho. Pra que? Tomei uma bronca imensa, quase apanhei, claramente revoltada ela explicou do jeito dela que cresceu, que preciso me orientar para atividades e práticas de uma menina pré adolescente. Massss… o que fazer?

Sugeri então um passeio no meio do labirinto verde que é o Parque Trianon, um oásis verde no coração da Avenida Paulista.

Ela topou numa boa passear pelo bosque, curtindo a sombra e o silêncio que o mesmo produz, mesmo numa das partes mais agitadas de São Paulo.

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Andamos por todo parque até o fim, na entrada do Colégio Dante Alighieri na Alameda Jaú.

Ia tentando captar o que ela queria fazer, jogando volta e meia uma isca, recheados de NÓN, o não da Jujú, alto, claro e objetivo.

“Vamos parar na banca Julia?” Bingo! Finalmente dei uma dentro. Ela disse oi para a senhora dona da banca e logo pegou uma dessas revistinhas pra pintar da Pepa… fomos embora pegar ônibus de novo.

Sinceramente ando perdido pra alguns programas que antes, quando criança Julia topava sem problemas. Hoje ela fica sem graça de fazer certas coisas. Vou pesquisar o que fazer com uma menina pre adolescente.

Até lá vamos tentar a comunicação pelo Ipod touch com o programa Niki Talk.

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10 anos de vida!

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Foram 11 horas de espera, para finalmente pega-la em meus braços. Segundo a enfermeira que a me entregou, apesar dos tantos anos fazendo a mesma coisa, foi o parto mais demorado e emocionante que ela presenciou.
Eu estava muito preocupado com a mãe dela. Só queria que tudo passasse logo. Também estava cansado, mas meu cansaço era tão ridículo perto de um parto natural de 11 horas que eu não tinha coragem nem de falar nisso.
Aliás o não pensar me acompanhou um tempinho, até que a ficha de pai caiu…
10 anos depois eu lembro de cada imagem. Cada som. Cada cheiro.
Fui aprendendo a ser pai. Gradativamente. Depois do diagnóstico de autismo, segui os passos da mãe dela, estudando, pesquisando para que isso não se tornasse um problema. Aceitando a condição dela, aos poucos. Percebendo, com o passar do tempo, minha missão. Compreendendo que passei uma vida toda aqui nesta existência para gerar a minha filha. Cuidar dela. E para saber de verdade o significado da palavra amor.
Julia parabéns pelos seus 10 anos de vida! Toda a emoção que eu sinto de ser seu pai é o melhor sentimento que eu posso ter. Sem dúvida, você me deu a oportunidade de ser uma pessoa melhor. E eu vivo hoje por você. Porque já não sei mais onde eu termino e você começa.

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Eu subo em árvores

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Eu vou subir na árvore.
Vou subir em várias.
Vou ver a vista lá de cima e olhar para baixo.
Vou subir pelo prazer de subir.
É isso que eu sinto.
É isso que eu faço.
Faço o que sinto.

(fotos: passeio ao Parque Villa Lobos)

Abaixo um video muito engraçado de Julia fazendo gracinha e falando IHHHH…

Porque os Parques de diversões não deixam as pessoas com autismo se divertir em TODOS os seus brinquedos?

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No meu passeio com a Juju no dia 3 de agosto, depois de almoçarmos, fomos a um mini Playcenter, aqueles que existem em alguns shoppings. Enfim, eu já sabia que ela não poderia ir nos brinquedos maiores. Isso porque eles tem uma regra (absurda) de altura que impede algumas crianças de brincar. Mas deixa o pai ou a mãe acompanhar o filho pequeno, mesmo eles pesando 3 ou 4x mais que, no caso, minha filha.
Ela ficou olhando com uma cara de “porque eu não vou papai?” o que me fez pensar em pedir ao departamento de marketing, administração, atendimento ao cliente do parque para que pudessem entender a realidade destas crianças e principalmente muitos adolescentes e adultos autistas, que tem vontade de brincar e não podem, por regras de “segurança” que não assegura nada. Na prática, essas regras tolhem a liberdade dos pais ou responsáveis e, conhecedores dos limites dos filhos ou pacientes a escolher o brinquedo adequado a capacidade física e psíquica.
Mesmo que seja por meio de um termo de responsabilidade mais elaborado.
O caso é tão sério que até um brinquedo que não tem nada de perigoso e qualquer adulto ou criança poderia brincar ali é um tubo/escorregador fazendo um circuito pequeno também é vetado.
Isso ocorre também no Hopi Hari, que é do mesmo grupo do Playcenter. E Juju ali foi impedida de ir na maioria dos brinquedos, com a mesma desculpa “que seria perigoso para ela, ou que a poria em risco”.
Na época escrevi ao Serviço de Atendimento ao Usuário deles que me respondeu que essas regras servem para garantir a integridade física das pessoas com autismo.
Eu queria entender QUEM foi o grande especialista que criou estas regras? Queria entender o porque destas crianças, adolescentes e adultos que teriam plenas condições de ir e se divertir como qualquer criança ou pessoa de desenvolvimento típico, são cerceadas de um direito básico, o de utilizar o parque a que pagou POR COMPLETO.
Isso acontece diariamente com vários pais e crianças. Aconteceu com uma amiga e seu filho, a advogada e diretora jurídica da ONG Autismo & Realidade, que também questionou essas regras de “segurança”, já que o filho também foi impedido de utilizar os mesmos brinquedos que Julia.
Essa segurança é para quem? Essa segurança serve para que?
Se entrarmos nos Parques mencionados sem citar o autismo de nossos filhos eles poderão se utilizar de todos os brinquedos (como qualquer usuário) só que não terão direito a não pegar fila (uso preferencial). Isso é muito injusto!
Estou pensando seriamente em criar uma “comissão” de pais de autistas para questionar essas regras de segurança, no intuito de garantir o mesmo direito de utilização às pessoas com autismo, sejam crianças, adolescentes e adultos.
Vamos à luta garantir a diversão democrática aos nossos filhos!

Dia dos Pais e Autismo no Fantástico

Estes dias estava vendo um vídeo do escritor uruguaio Eduardo Galeano, e ele falava sobre um encontro na Praça Catalunha em Barcelona, bem como de um encontro de jovens na Praça do Sol em Madri. Falava sobre entusiasmo e o poder desta força. Pensei diretamente na ligação que ele tem com a criação de um filho autista.

Essa semana tem o dia dos Pais e como pai fiquei pensando em todos os momentos que passei por causa da Julia, depois do diagnóstico dela, uma fase ainda sem muitas informações que norteassem uma ação mais positiva e produtiva no desenvolvimento dela.

Vi ainda, feliz, o primeiro quadro da série que o Dr Dráuzio Varela vai fazer sobre autismo, apresentando os vários aspectos da síndrome num programa como o Fantástico, na Rede Globo, o que vai mudar, e muito, a opinião de grande parte do público em geral que desconhece ou conhece muito pouco do assunto.

Tudo isso são conquistas dos pais e profissionais que se mobilizam e fazem a sua parte em passar informações, se expor, não deixarem de lutar um só minuto apenas para que as pessoas com autismo no Brasil possam ter uma vida mais digna e um futuro menos sombrio, com menos preconceito.

Mas voltando ao tema inicial – o entusiasmo – criei até um anúncio para Revista Autismo sobre o assunto. Ele informa que a palavra entusiasmo vem do grego “en-theos-asm” que significa “sopro de Deus dentro”. Se a respiração é nossa principal fonte de energia física, o entusiasmo é a principal fonte de energia motivacional. O entusiasmo gera uma imensa energia interna, dotada de um ânimo capaz de mover as pessoas adiante, com dedicação, paixão e força criadora, ainda que as condições não sejam as melhores. Tanto isso é verdade que a experiência mostra que o sucesso e o êxito estão, na maioria das vezes, relacionados ao nível de entusiasmo das pessoas do que à sua capacitação técnica ou à abundância de recursos.

A lição dessa experiência em criar Julia com entusiasmo é que a resposta dela tem sido muito positiva. Ela realmente se deixa envolver, contaminar por este entusiasmo que acaba “facilitando” a abordagem ou a aprendizagem. Isso é fato.

Vendo o primeiro quadro do Fantástico, vendo aqueles pais jovens tratando de um menino que não dormia e tomava mais de 10 banhos por dia me vi naquela situação, mas há muito tempo atrás. Quando eu e a mãe dela perdíamos noite de sono com ela chorando pequenininha, sem motivo aparente, às vezes por horas a fio, nos deixando completamente exaustos e desesperançosos.

Mas isso muda. Muda com a informação. Muda com tratamento. Mas tudo isso precisa ser aprendido pelos pais. Somos nós (pais) que fazemos mudar essa história, depende única e exclusivamente de nós. Aliás, a qualidade de vida dos nossos filhos (e nossa), o desenvolvimento deles e até onde eles podem chegar depende SOMENTE disso. Uma nova postura diante do fato do autismo ter atingido sua família.

Caso você encare como um problema, e tenha apenas a autopiedade e a raiva como base dificilmente o quadro irá se alterar. Muito pelo contrário, provavelmente se agravará. Portanto é necessário uma novo modo de viver, de encarar o autismo, não como um peso em sua vida, mas como um desafio, uma missão que lhe foi dada, para que todos possam crescer, como pais e filhos, como seres humanos, como pessoas que vão enfrentar juntos algo que poderá trazer frutos positivos em suas vidas, apesar do aparente drama.

Hoje eu, como pai, encaro ter a minha filha Julia uma benção em minha vida, que me faz ser um homem mais atento a certos aspectos da vida que, antes, eu não dava valor.

Claro que há momentos na vida que bate um sentimento que me faz chorar. Uma angústia. Acredito que todos os pais e mães de autistas tenham esses momentos, mas eles passam. A gente enxuga as lágrimas e volta ao nosso dever de educar, de preparar nossos filhos para uma vida o mais próximo possível do que chamamos de “normal”.

Estar ciente da nossa missão o tempo todo é essencial. Estar preparado para mudar o que os indianos chamam de “karma” é fundamental. Tornar esse karma positivo é a alquimia que todos os pais de autistas devem ter em mente.

Aos pais que lerem este post e às mães que desempenham sozinhas o papel de mãe e pai desejo um feliz e proveitoso dia dos pais.

Para finalizar o post, mais um pensamento de Galeano, que inspira e pontua como criar um filho autista.

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4 dias, 3 noites

Conforme prometido segue a narrativa dos fatos mais importantes destes quatro dias passados com Julia. Ela irá sair de férias e vai viajar com a mãe por 14 dias. Parece pouco tempo pra sentir saudade. No meu caso é muito tempo sem minha filhota.
Voltando aos dias: Jujú chegou aqui no sábado uma criança e saiu daqui hoje outra.
Veio perto da hora do almoço super agitada, eufórica. Almoçou etc e parecia que queria fazer tudo na mesma hora: fazer artes, andar de bike, passear, estourar bexigas etc. Então, resolvi propor “abaixar” essa excitação vendo um filme no meu computador deitados na cama.
15 minutos de filme, senti minha camiseta molhar de um líquido quente… Batata! Mesmo eu tendo posto ela para fazer xixi pouco antes do filme ela tem a capacidade de segurar e controlar o xixi. Deu uma risadinha bem sacana na hora que eu falei “levanta, filha, vai pro banheiro tirar a calça e a calcinha”. Bom, ritual da limpeza dela e troca de roupa feito, tentamos reatar o filme.
5 minutos depois ela dá uma gargalhada estridente e sinto novamente o novo colchão molhado. Fiz cara de paisagem e repeti todo o esquema anterior, sem alarde, para não reforçar.
Passeamos, compramos bexigas, lanchamos juntos na rua e voltamos perto do final da tarde. Fez tudo que mais gosta: andou de bike, trabalhamos com tinta, tesoura, cola e materiais fazendo um novo quadro.

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Colagem feita com cascas de árvore para simular o tronco dos limoeiros

Comeu, fez quebra-cabeças e viemos pro “nosso canto”. Dei banho estouramos algumas bexigas, daí sessão iPad para ela, computador para mim. Depois filminho juntos e caminha.
1 xixi no lençol. Troquei o lençol uma vez, dei banho na parte de baixo dela, troquei ela e caminha de novo.
Novo xixi. Fiz, de novo, sem falar absolutamente nada com ela todo o ritual acima. Deitamos de novo.
Xixi novamente! Daí eu simplesmente disse pra ela: “vai dormir assim!”. Ela chorou, queria ficar perto de mim eu tirava o braço, me virei e fingi dormir. Ela vinha com a mão em meu rosto para virar, eu tirava a mão dela e fiquei resoluto, ela ia dormir assim. Aquele chororô durou uns 20 minutos entre várias tentativas de me fazer mudar de ideia. Chorou de soluçar, até que dormiu. Esperei 30 minutos, quando ela roncava gostoso, eu a acordei. Disse “vamos trocar agora filha”. Ela acordou bravíssima, com muita pouca boa vontade me ajudou a vestir a nova calça de pijama, daí sim deitamos e deixei ela dormir e dormi.
Queria ver na próxima noite o efeito desta tática.

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Acordamos fomos no sítio do amigo Gilson, ia ter um jogo de futebol e um churrasco e, apesar do excesso de homens, resolvi levar Jujú porque sabia que ia ser um ótimo ambiente como foi. O lugar em São Roque é lindo, e tinha um astral incrível. Jujú se esbaldou ao ar livre, brincando com o cachorro do Henrique ( o Lion, um golden retriever muito mansinho e novinho ainda), na casinha de bonecas cor de rosa que havia no sítio e no playgound completo, só para ela.
Enfim. Dia de sonho ainda por cima com churrasco, que Jujú adora.
Ela já interagia com todas as pessoas e todas as pessoas ali, já sabiam um pouco mais sobre autismo, e como lidar, como conviver com uma criança autista. Eu deixava as coisas acontecerem naturalmente e observava não apenas a reação dela. É curioso demais isso…
Raras as vezes que tinha que explicar alguma coisa, até o momento que ela roubou o sanduíche da mulher do Henrique, dona do cachorro que ela brincava sem parar. Quando tirei o sanduíche dela e ela chorou sentido quase apanhei dos 2 times de futebol. Até explicar que ela faz dieta de glúten, etc que faz muito mal para ela, passei apuros. Mais uma informação ao grupo e tudo transcorreu otimamente bem. Ela pulou, brincou, gritou, gastou energia até a volta pra SP.
Dei banho, assim que chegou e ficou vendo vídeos, já cansada.
Assistimos a uns vídeos até nós dois dormimos. Sem xixi!!! Deu certo uma noite, agora minha expectativa era para terceira noite. Se ela realmente tinha aprendido a lição do xixi.

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Jujú, já “bicuda” de sono.

Dia seguinte SN (sem novidade). A rotina básica de quando ela está aqui, mas como estava bem frio, ficamos mais “recolhidos”. Novo teste, nova noite de sono. Resolvi ousar indo deitar mais cedo. A tática foi vermos filmes pelo youtube juntos. Ela deitou no meu peito até ressonar. Mais uma noite sem xixi!!!
Eu aprendi a lidar com essa questão e ela aprendeu que não é legal fazer xixi na cama.
Parece pouco, mas pra mim foi uma enorme conquista. Em breve, morando comigo também quero ela cada vez mais participativa e independente. Ela nunca se recusa a ajudar quando você a solicita. Alías parece que ela fica ansiando isso. O convite. Ela ajudar. Acho que quem é pai de autista repara nisso: a disposição para tudo que eles tem. Qualquer coisa que é proposta, por eles é feita sempre com mais que prazer. É difícil explicar. É mais que prazer porque tem a ver com “missão cumprida”. A seriedade deles em executar é invejável. Eles, autistas, é quem sabem viver. A entrega deles é total.
Sendo assim, tirar disso uma forma de estimular a Julia a fazer uma série de coisas. E com isso se integrar. E assim ambos evoluirmos os aprendizados: ela na vida e eu no desenvolvimento dela.

Obs: Estes dias, por acaso, me chamaram de “um bom pai”. Eu não sei se sou um bom pai. Sou pai. Acho que todo pai que é pai é deve ser um bom pai. Não sei em que sentido se referem. O contato, a influência ou a forma que eu lido com ela que me fazem ser um “bom pai”. Me acho o pai da Julia que, por ser uma autista não verbal merece todo minha atenção e meus esforços em ajuda-la. Com assim seria se eu tivesse uma menina com desenvolvimento típico. Pai especial é o papai do céu que tem mais de 7 bilhões de pessoas pra olhar nesse planeta, fora toda a natureza…
Só sei que estes 6 meses morando longe dela me ensinaram a otimizar melhor o tempo com ela. Me entreguei, como nunca, para entende-la e faze-la sentir que estava ali comigo, trocando, sendo compreendida, convivendo e aprendendo juntos a lidar com as várias situações dessa vida. Os dois. Ambos. Ela me ensina tanto quanto eu a ela. E ficar sem essa companhia, que só me ensina, só me acrescenta, vai fazer falta.

Histórias de alguns dias…

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Os dias de artes com Julia tem sido muito proveitosos. A quantidade de sons que ela emite fazendo as atividades é incrível. Algumas situações de ecolalia tem ocorrido com palavras simples: pode, deitar, pintar, etc.
Ontem fizemos um dia especial apesar dela só ter vindo para casa no finalzinho da tarde: brincou de bike no jardim estourando bexigas até cansar.
Depois brincou um tempão no “túnel” que o papai fez para ela com um trenzinho. Quem conhece sabe que Julia adora túneis. Vamos hoje terminar de montar o cenário do trenzinho com rolos de papel e embalagens de iogurte pintados.

Depois do jantar fizemos uma farra na sala da vovó com as almofadas do sofá, criando a famosa casinha para os bichinhos de pelúcia dela. Riu muito cada vez que a casinha desabava em cima dela. Foi assim até umas 21h quando fomos para o quarto. Daí fiz algumas táticas para evitar o xixi na cama, ocorrência frequente nas últimas dormidas aqui. Estouramos algumas bexigas, com canetinha depois de pintá-las. Depois, apesar de Julia ter tomado banho já na casa dela, estreamos a bacia comprada pelo papai para o banho dela. Pus a touca, dei duas canecas na mão dela e deixei ela brincar muito na água quentinha (tática para baixar a “bola” dela para dormir). A uma certa altura entrei na dança sentei no vaso sanitário para ela me molhar. A cada caneca na cabeça eram muitas gargalhadas, Juju literalmente fez xixi de dar tanta risada.
Tirei ela do banho e fomos para cama umas 21h45 eu com muita esperança dela dormir… Escutamos Xuxa “Um novo lugar”, que ela gosta que eu cante para ela e cantou comigo do jeito dela.

Fiz uma promessa para ela e para mim mesmo que um dia ela vai cantar de verdade comigo essa música toda. E vai. Ano que vem vamos investir num trabalho intensivo de fonoaudiologia para que isso ocorra. Inclusão escolar também será uma pauta de conversa com a mãe dela. A Lumi sempre ajudou muito Juju, mas ela passa o dia todo em companhia somente de alunos autistas e penso que a convivência dela com crianças típicas (assistida por uma facilitadora) vai ajudar muito em seu desenvolvimento geral.
Músicas iam e vinham a noite e nada de Jujú dormir. Escapou o primeiro xixi apesar de todos os esforços. Fiz cara de paisagem e sem alarde troquei a roupa de cama, passei lencinho umedecido nela e troquei a calcinha e o pijama dela.

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Bom. Aquilo que, em princípio seria fácil, foi se tornando bem complicado. Eram 1h15 e nada da Julia dormir apesar do sono imenso que ela estava sentindo.
Experimentei a tática do escuro então. Desliguei DVD, iPad, computador e comecei a cantar até que eu e Jujú dormimos (confesso não saber quem dormiu primeiro)… E foi assim. Hoje acordamos, tomamos um belo café da manhã e apesar do dia chuvoso, ele promete muitas atividades.
Uma coisa que tenho feito há três semanas é evitar o uso da palavra NÃO para Julia. Tenho substituído por PARA de parar ou ATENÇÃO JULIA e ela tem parado de fazer as coisas erradas.
A quantidade de NÃOS que uma criança autista ou especial recebe por dia é imensa. E não é muito útil algumas vezes, já que ela até ri. Evitar essa palavra tem sido uma tática excelente, tenho percebido isso pela quantidade de NÃOS que ela falava e que fala agora.
Estava pesquisando, algumas tribos brasileiras não tem a palavra NÃO. No Xingu as crianças são criadas sem essa palavra e nem por isso as crianças são mal educadas, muito pelo contrário.
Ainda vou discorrer mais sobre o tema do NÃO. Até lá vou é aproveitar esse dia com minha filhota. Bom domingo à todos!